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Balão da Argentina viaja 1,2 mil quilômetros e cai em propriedade rural no norte do RS

Taiana Camargo

Taiana Camargo

Vilson Becker Gehring, 64 anos, estava trabalhando na lavoura no interior do Ibirapuitã, no norte do RS, no último sábado, 26, quando algo chamou sua atenção: era um balão azul estourado, pendurado em uma cerca da propriedade rural. Ao pegar a borracha, veio a surpresa: o balão trazia uma mensagem vinda da Argentina.

— Estava indo para a lavoura de trator e enxerguei o balão. Na curiosidade, li o bilhete mas não entendi, só vi que era espanhol. Só tinha visto coisa assim na televisão, de balão que vai de um país para outro. É isso, são coisas que a gente solta e não têm rumo — relata.

A história veio à tona com a sobrinha de Vilson, Catiane de Almeida Avila. A mensagem no balão chamou a atenção e ela pesquisou as informações que vinham no texto na internet. Foi aí que descobriu o endereço e as redes sociais de uma escola que comemorou o Dia das Crianças na Argentina, em 20 de agosto.

A instituição é de San José de la Esquina, comuna com 7,2 mil habitantes da província de Santa Fé. Na ação da escola, as crianças escreveram o que desejavam ganhar na data comemorativa e prenderam o recado em balões. Todos foram soltos no ar — e um deles andou 1.272 quilômetros, até Ibirapuitã.

— Já estou em contato com o pessoal de lá e estamos nos organizando para enviar uma caixa de presentes para a Valentina, a menina que enviou a mensagem. Vamos mandar brinquedos e a maquiagem, que ela pediu, e folders que contam a história de Ibirapuitã — contou.


Não é a primeira vez

Em 1986, o agricultor Eloy Calegari, agricultor vizinho à propriedade de Vilson, também se deparou com algo parecido: ele fazia a colheita do trigo no mês de novembro quando, no meio da lavoura, se deparou com um os restos de um balão vermelho.

Ao pegar o balão, encontrou uma mensagem escrita em espanhol com desenhos de pomba, coração e uma flor. Estava escrito: “Mensagem de paz”, em espanhol, junto com o endereço e um número que parecia ser de telefone do remetente: Marco Andrés Quintana.

— Até pensei que fosse uma mensagem daquela Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], porque falava de paz. No fim nem fui atrás para ver de quem era, mas guardei o bilhete. Agora, o vento trouxe outra. É bastante coincidência — disse Eloy.

Correntes de jato de ar impulsionaram balão até o RS

Para chegar a Ibirapuitã, o mais provável é que o balão tenha sido impulsionado por uma corrente de jato de 4 mil a 5 mil metros acima da superfície, explicou o meteorologista e pesquisador do Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas (CPPM) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Henrique Repinaldo.

Segundo ele, em níveis mais baixos as correntes são mais fortes e vêm do Paraguai para o Rio Grande do Sul. Da região de Santa Fé, na Argentina, os ventos teriam de vir do oeste e sudoeste.

— O balão deve ter subido bem alto para chegar em Ibirapuitã, no norte do Estado. Acredito que ele tenha ficado em 4 mil a 5 mil metros de altura e foi levado por correntes de jato, provavelmente a 100 km/h. Isso é bastante possível e, como o balão se movimenta com a corrente, conseguiu resistir a essa velocidade — explicou.

Apesar de serem feitos com material mais resistente, é comum que organizações soltem balões meteorológicos para medir as variações atmosféricas. De modo geral, eles chegam a até 12 mil metros de altura e estouram à medida que sobem. Mas, nesse caso, o mais provável é que o balão viajou por uma corrente de ar estável, o que o manteve no mesmo nível por mais tempo.

 

Fonte GZH